quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O fotojornalismo carioca



No documentário Abaixando a máquina – ética e dor no fotojornalismo carioca, os fotógrafos do Rio de Janeiro contam os bastidores da notícia, como a entrada em áreas dominadas pelo tráfico de drogas, acompanhada de policiais, e o registro de momentos íntimos de pessoas comuns. O longa-metragem de Guillermo Planel e Renato de Paula relembra, por meio de depoimentos dos profissionais da câmera fotográfica, fatos marcantes, como o sequestro do ônibus 174, a mudança na rotina após a morte do jornalista Tim Lopes, no Morro do Alemão, e a foto de engenheiro baleado, no colo da mãe, no Centro – que rendeu a Marcelo Carnaval o Prêmio Esso 2006.

Há imagens dos fotojornalistas entrando na favela para registrar o sofrimento e da dor dos moradores, depois de conflito entre a polícia e o exército do tráfico de drogas. O filme cumpre a função de discutir o noticiário policial e toca na importância da imagem como ferramenta fundamental na resistência à desinformação, questionável por alguns profissionais.

Os fotógrafos ressaltam a força da imagem para fazer as pessoas se darem conta da situação em que a sociedade se encontra. Ali, segundo eles, há a busca por registrar a realidade, aquilo que o profissional vê, consta e precisa se passar para o leitor, para o internauta. Questiona-se, porém, se essa visão do fotojornalista não está muito deturpada (costuma-se dizer que os jornalistas usam “óculos especiais”) a ponto de publicar uma foto que, na verdade, desconstrói a realidade e confunde a população. A escolha da foto pode ser interferida por critérios editoriais e ser usada mais como produto do que como realidade, argumenta-se. Por exemplo, por que se usa mais fotos de operações policiais? Acredita-se que a decisão esteja ligada estreitamente ao interesse mercantilista, ao objetivo de vender jornal e, assim, dar mais espaço para notícias que transformam o Rio numa cidade violenta, armada e perigosa. A imagem vendida pela imprensa se espalha pelo mundo, consolidando os adjetivos associados ao Rio.

Os limites dos fotojornalistas também entram em pauta quando se pensa na privacidade da população, principalmente dos moradores das favelas dominadas pelo tráfico de drogas, invadidas por policiais que ostentam fuzis e armas poderosas. Muitas vezes, nenhuma palavra é trocada com a pessoa antes de o fotógrafo registrar o momento. Eles apertam o botão a qualquer custo, e depois, analisam se determinada foto deve ser ou não censurada. Um exemplo de análise é a foto vencedora do Prêmio Esso 2006 na qual Marcelo Carnaval flagrou uma mãe com o filho morto depois de baleado no colo, durante a noite, no Centro. Critica-se a atitude do fotógrafo ao registrar o momento por acreditar que aquele era um momento íntimo, quando a mãe enfrentava o falecimento de um ente querido. Outros reforçam a importância de fotografar para abrir os olhos da população quanto à violência da cidade e, assim, lembrar o grande obstáculo a ser enfrentado. Já quem critica enxerga a publicação da foto como produto, cujo interesse principal é a venda em escala para aumentar a renda do veículo de comunicação.

Atrás dos policiais, muitas vezes presentes para fazer operações policiais com objetivo de prender bandidos ou apreender drogas e armas, os fotógrafos correm o risco de levar uma bala. Assim como ocorreu há um ano, quando o repórter cinematográfico Gelson Domingos, da TV Bandeirantes, foi morto depois de atingido por tiro de fuzil na Favela de Antares, Zona Oeste do Rio. Desta forma, no decorrer do filme, questiona-se a falta de segurança que cerca os profissionais da área. Em determinado trecho, mostra-se imagens gravadas no dia 17 de abril de 2007 no Catumbi, quando tiros se aproximam da equipe de jornalistas, que são obrigados a recuar. O gosto pela ação e a falta de conhecimento sobre a noção do perigo são destacados pelos fotógrafos ouvidos, que admitem trabalhar numa profissão perigosa.

Leia também:
Isso daqui não é uma aula de fotojornalismo, de Mauro Pimentel

Qual é o limite do jornalista

Neste ano, época de eleições municipais, um jornalista do Jornal da Tarde – que, recentemente, deixou de circular depois de 46 anos – se candidatou para vereador de São Paulo. Ele apareceu no horário eleitoral, fez ações de campanha, tinha cavalete, número e nome. O objetivo era incorporar o papel do político e contar as experiências vividas durante a campanha. Um dos momentos mais escabrosos foi ouvir “Ah, sem problemas. Já estamos acostumados com esse tipo de trabalho. Aliás, eu até preciso ver se existe disponibilidade de veículos para o dia 7 [dia das eleições]…” de funcionário de empresa que aluga van, kombis, mini-ônibus. Leia alguns posts:


Esta não foi a primeira vez que um jornalista assumiu o papel de outro para entender, contar, enxergar por um ponto de vista diferente. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2011, o repórter Lauro Neto, da Revista Megazine – hoje, disponível só online –, do jornal O Globo, inscreveu-se na prova. O veículo divulgou o tema da redação antes da autorização para os estudantes deixarem a sala, e a confusão já estava armada. Uma aluna teria avisado a redação ou o repórter teria passado a informação? O resultado da experiência do jornalista como vestibulando foi contada no texto abaixo, publicado no dia 24/10/2011 e reproduzido na íntegra:

Sem ser repreendido por fiscais, repórter faz a prova do Enem 2011 com itens que eliminaram outros candidatos 
RIO - Quando fiz o Enem pela primeira vez, em 2000, não fiquei tão nervoso quanto na edição deste último fim de semana. Naquela época, a prova servia no máximo para entrar na PUC e não tinha tantos aparatos tecnológicos de segurança para evitar fraudes. No sábado, tive até que tirar meu relógio analógico de pulso a pedido do fiscal. Guardei-o prontamente com meu celular num saquinho que havia trazido de casa, já que ele não me ofereceu a bolsa lacrável recomendada pelo Inep. 

Depois da prova, fiquei intrigado quando soube que, em diferentes partes do país, candidatos estavam sendo eliminados devido ao uso de canetas não transparentes, lápis, borracha e até brincos(!). Perguntei-me se o aplicador da prova não teria atentado para a caneta toda preta que ficou durante mais de cinco horas sobre a mesa. Também achei estranho que estudantes tivessem sido desclassificados por twittarem antes do início do exame. Em pelo menos três salas vizinhas à minha, celulares tocaram durante o tempo de prova, e seus donos foram apenas orientados a desligá-los. 

Por isso, no segundo dia de prova, decidi inovar no visual: adotei não bijuterias, mas boné e óculos escuros - proibidos no edital do Enem. Comprei também um lápis com borracha na porta da faculdade, onde o vendedor garantia aos gritos: "Comprou, passou!". 

Novamente, o fiscal não me forneceu o saquinho e, desta vez, resolvi ousar: guardei meu celular no bolso, no modo silencioso, para não perturbar ninguém. Canetas (azul e preta não transparente) ficaram sobre a mesa, como no dia anterior. 

O aplicador de prova também não percebeu que vários estudantes abriram o caderno de perguntas antes de soar o sinal de início. Só depois de passada meia hora de prova, ele solicitou, educadamente, que eu tirasse o boné e o colocasse embaixo da mesa. Minutos depois, perguntou também se eu podia guardar meus óculos escuros, que estavam presos à minha camisa. Atendi-o prontamente. 

Bateu vontade de ir ao banheiro. Como não havia nenhum fiscal por perto, decidi testar a segurança da prova e mandei um SMS para a equipe de reportagem do GLOBO com o tema da redação: "Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado". Que ironia! Eu, em frente à privada, tornando pública uma informação através de comunicação em rede. Deu tempo até de mandar outro torpedo com os títulos e autores dos textos da coletânea. 

Voltei à sala, preenchi a folha de respostas com lápis, canetas azul e preta (não transparente), e dei um título à redação, pensado no banheiro: "Sorria, você está sendo eliminado!". Depois, entreguei aos fiscais e fui embora pensando: se eu fosse um aluno desesperado para entrar na faculdade, poderia até ter consultado a internet pelo celular ou trocado SMS com algum professor para tirar dúvidas... 



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Os imprevistos no jornalismo

Os imprevistos são importantes e fazem parte da profissão. Essa foi uma das lições que o repórter da Globo News Rodrigo Carvalho, de 25 anos, levou na carreira profissional. O jornalista esteve na cobertura do resgate dos 33 mineiros no norte do Chile, há aproximadamente dois anos. A permanência dos mineiros durante dois meses debaixo da terra teve, entre as consequências, o livro de Carvalho, Vivos Embaixo da Terra: Relatos de um Repórter no Resgate Histórico dos 33 Mineiros no Chile (120 Páginas, Editora Globo, 2011). A obra reúne histórias dos bastidores da primeira cobertura internacional dele, algumas contadas por Carvalho, ontem de manhã, na PUC-Rio, em comemoração aos 25 anos do Projeto Comunicar. 

Ele lembra que se envolvia em todas as etapas da reportagem, pois tinha de assumir funções da produção, dirigir o carro, reservar o hotel, etc. Desde a saída do jornalista da redação no Rio de Janeiro, porém, a imprevisibilidade já cercava Carvalho: 

– Estava na inauguração de um laboratório da Petrobras, cobertura para o Jornal das Dez, e aí me liga a editora-chefe do [programa] Sem Fronteiras, Renee [Castelo Branco]. ‘Queria combinar com você o esquema da cobertura dos mineiros no Chile’. Ninguém tinha me falado nada – recordou na palestra para 60 alunos de Comunicação Social. 

Nem todas as lições, porém, foram fáceis de lidar. Quando estava no Chile, o para-brisa do carro alugado ficou estilhaçado por causa de uma pedra, e ele teve de conversar com a locadora de automóvel. Mas a sorte prevaleceu na carreira jornalística, principalmente, na cobertura do resgate dos mineiros: 

– No Chile, quando houve o resgate, a cobertura foi para frente do hospital. Mas eu estava lá dentro, porque eu tinha ido ao banheiro. Fiquei lá dentro, com o meu crachá. A gente foi para a ala dos mineiros e os filmei. Perguntei se eles estavam bem. A matéria do Jornal das Dez foi toda com as imagens do celular.

Os escândalos da BBC


Os britânicos que pagam a licença anual da BBC de £145.50 (aproximadamente R$ 475) se surpreenderam com os bastidores do conglomerado de comunicação.

Em outubro deste ano, a principal concorrente da BBC, ITV, exibiu um programa sobre abusos sexuais praticados pelo apresentador da BBC Jimmy Savile, morto no ano passado. O jornalista Peter Rippon, da BBC, escreve que uma reportagem quanto ao tema tinha sido feita pela emissora. O conteúdo tinha sido, porém, “engavetado”. O caso ganha maior dimensão quando o premier David Cameron pede a reabertura das investigações. A ombudsman do New York Times questiona a recém contratação de Mark Thompson, diretor-geral da BBC de 2004 a 2012, que nega estar envolvido no escândalo. A história de Savile ganha desdobramentos, com revelações de pessoas que foram abusadas pelo apresentador durante a infância. Acredita-se que haja cerca de 300 vítimas identificadas e, em alguns casos, o crime ocorreu dentro da BBC. Pelo menos três médicos do Hospital Stroke Mandeville teriam recebido propina de Savile, encobrindo o apresentador dos abusos sexuais.


Enquanto isso, o programa da BBC Newsnight exibiu reportagem sobre abusos sexuais praticados pelo político Lorde Alistair McAlpine. A emissora não deu o nome dele, mas deu evidências para os telespectadores encontrarem o nome de McAlpine. As acusações não confirmaram, porém, pois tanto ele quanto a possível vítima negaram. O então diretor-geral da BBC, George Entwistle, renuncia o cargo e recebe a compensação de um ano de trabalho, R$ 1,47 milhão. Mais funcionários da BBC se afastam do cargo. Desta vez, a diretora da BBC News, Helen Boaden e o vice dela, Stephen Mitchell, pedem licença temporária, enquanto a empresa analisa por que o programa da BBC sobre Savile não foi ao ar. BBC entra em acordo com McAlpine para indenizá-lo em £185 mil, o equivalente a mais de R$ 600 mil. 

Se fosse no Brasil, todos ainda estariam mamando nas tetas da empresa pública choramingando “Não fui eu! Não fui eu!”.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A trajetória da Abraji


A morte do jornalista Tim Lopes, executado por traficantes do Morro do Alemão, onde estava infiltrado para fazer uma reportagem investigativa para a TV Globo, em 2002,  foi o estopim para a criação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Dez anos depois do surgimento do órgão, o atual presidente da associação e editor-chefe do RJTV 2a Edição, Marcelo Moreira, participou de mesa na sala 102-K com o professor da matéria eletiva Jornalismo Investigativo da PUC-Rio, Leonel Aguiar, nesta terça-feira (13).

– Não era normal um jornalista ser assassinado. Se algo não fosse feito naquele momento, o Brasil poderia caminhar para a banalização da morte dos jornalistas – recorda-se Moreira, para aproximadamente 50 alunos.

Moreira acrescentou que a tendência seria a autocensura dos jornalistas por medo, em razão da falta de investigação do crime para encontrar o culpado. A união dos profissionais em busca de respostas podia ser o caminho. A conjuntura internacional, no entanto, não era favorável.

– O Brasil tinha estreado na Copa do Mundo contra a Turquia. Era um momento de festa, e nós, jornalistas, estávamos preocupados em saber onde estava Tim Lopes.


Apesar disso, houve manifestações em Copacabana, na Tijuca, na Penha e encontros no sindicato dos jornalistas. E a partir do momento de tensão, os colegas de Tim decidiram tirar da morte dele algo positivo. Segundo Moreira, o término da matéria que Tim produzia foi cogitado, assim como ocorreu no Arizona, Estados Unidos, com jornalista morto pela máfia que ele investigava. Como não conseguiram acabar a matéria, viram-se obrigados a cobrar “que as autoridades fizessem o papel delas”.

Nos primeiros passos, a função da Abraji se resumia a seminários curtos, de um, dois dias e oficinas para usar Microsoft Excel e banco de dados. Com o tempo, mais profissionais passaram a reconhecer a importância do órgão, e o espaço da organização aumentou. Como exemplo, pode-se citar o prêmio Liberdade de Imprensa dado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) para a organização. (Leia mais)

Moreira adiantou que, de 12 a 15 de outubro de 2013, a PUC-Rio sediará uma das maiores conferências sobre a área, em congresso organizado pela Abraji. Esta será a primeira vez que o evento ocorre fora da Europa. O objetivo é reunir profissionais envolvidos no tema para discutir os métodos e trocar experiências. (Leia mais)


Colocar ou não o nome do traficante Marcinho VP

Durante a palestra, o jornalista também lembrou uma história inviável hoje, pós-morte de Tim Lopes e pós-pacificação da favela Santa Marta, em Botafogo. Ele (então Jornal do Brasil), Nelito Fernandes (então O Globo) e Silvio Barsetti (então O Dia) entrar na favela com o objetivo de conseguir uma entrevista com o cantor Michael Jackson, que gravaria um clipe no local. Nem tudo saiu como os planos, mas a vaidade de Marcinho VP rendeu, no mínimo, uma entrevista sobre o bandido. 

Um trecho do livro reportagem-romance "Abusado" rende uma discussão ética válida para todos que temos a pretensão de ser bons jornalistas. Em 1996, três repórteres dos três maiores jornais do Rio se infiltraram na favela Santa Marta. Os profissionais queriam produzir material exclusivo sobre o assunto que todo o país discutia naquela época: a gravação de um clipe de Michael Jackson no morro. Os três menosprezaram a organização do grupo criminoso que dominava a comunidade e não demorou muito para que fossem descobertos "disfarçados" de "favelados". Até aí, ok. Dois deles eram bem novos e temos de nos arriscar por uma matéria que acreditamos, mesmo correndo o risco de ficar sob a mira das metralhadoras de gente que julga e executa "sentenças" de morte com muito mais "rapidez" que o Estado. (Continue lendo o texto)


Mais sobre Tim

Leia mais sobre o jornalista Tim Lopes com o post A primeira semana, publicado no dia 11 de agosto.

sábado, 13 de outubro de 2012

As eleições na Rocinha


Nenhum dos 11 candidatos que moram e fizeram campanha na Rocinha  – cuja população alcança a marca de 69 mil pessoas, segundo o Censo de 2010foi eleito para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro neste ano. A eleição para vereador ficou registrada pelo lançamento de mais um candidato ligado à Associação Pró-Melhoramento dos Moradores da Rocinha, Léo da Comunidade, apelido de Leonardo Rodrigues Lima, do PTN. Ele tentava abocanhar os mais de 11 mil votos que deram ao ex-presidente da associação Luiz Cláudio de Oliveira, do PSDC, uma das 51 vagas na Câmara em 2008. Esta foi não a única semelhança. Assim como Claudinho, à época acusado de ter ligações com o tráfico de drogas, Léo também foi investigado. O Ministério Público Eleitoral (MPE) juntou provas para indiciá-lo por crimes eleitorais, como distribuição de cestas básicas para ganhar votos, boca de urna e aglomeração de mais de 20 cabos eleitores no dia das eleições. O comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na Rocinha, major Edson Santos, lembra que os moradores da favela já estavam acostumados a isso:

–  Foram anos e anos emergidos no tráfico de drogas e em grupos locais. Vai demorar um tempo, uns 15, 20 anos para mudar a realidade, para as pessoas terem o costume de ver outras coisas.

Campanhas como a de Léo, segundo o major, tendem a diminuir à medida que a pacificação se consolida na favela e, portanto, o direito do cidadão é restabelecido.

São 21h15 e faltam seis dias para o dia da votação. Cerca de 150 moradores da Rocinha descem da laje da Academia R1, no Trampolim, depois de reunião com Léo. Todos vestem a camisa da campanha – amarela, sem foto ou número de candidato –, herança da campanha de Claudinho em 2008. O comitê e a casa de Léo, um prédio numa das partes mais nobres da favela, ficam logo em frente ao empreendimento de paredes laranjas. Ali, ocorre outro encontro da campanha de Léo. Desta vez, numa mesa longa, composta somente por jovens, vista facilmente por meio das portas de vidros do comitê. Todos prometem que Léo será eleito.

A vitória não veio, e o candidato recebeu 5.775 votos. A escolha do partido, entretanto, esteve atrelada desde o começo unicamente ao objetivo de ser eleito:

Eu não conhecia o PTN. Acho que é uma coisa de Deus. Existe (sic) partidos grandes que você tem que fazer muitos votos para poder entrar, brigar com pessoas de poder aquisitivo muito alto. Eu tinha que procurar um partido no qual eu possa fazer 6 mil, 8 mil votos e ganhar a eleição – recorda-se Léo.

O cientista político Ricardo Ismael ressalva que muitos votos não garantem que o candidato entre para a lista de eleitos. Para ter direito a uma cadeira na Câmara, o partido ou a coligação teve de atingir nessas eleições, no mínimo, o quociente eleitoral de 61.051.

A menos de um quilômetro da casa de Léo, mora outro candidato, Antônio Ferreira de Mello. Ele sai todas as manhãs com os bolsos repletos de cartões. De beco em beco, cumprimenta os moradores da Rocinha e pede votos para o candidato Xaolin. É assim que ele é reconhecido desde a juventude, quando lutava artes marciais e foi apelidado com o nome do inimigo de Bruce Lee nos cinemas. Na época da ditadura militar, ele se lembra de ter assumido função de jogar pedra e bola de gude nos cavalos do policias. Para ele, o engajamento político desde a adolescência pode ser um diferencial na decisão do eleitor.

Foi mais tarde, em 1998, porém, que Xaolin largou o PDT para se filiar ao partido pelo qual lançou a candidatura à Câmara dos Vereadores, o PC do B, e conquistou 711 votos. Não ganhou. Candidato a deputado federal em 2006, a deputado estadual em 2010 e a vereador em 2012, Xaolin não pretende parar a luta por uma vaga no legislativo. 

(Matéria feita para a disciplina Técnicas de Reportagem em outubro de 2012)

O papel da imprensa na Uganda




Enquanto a imprensa brasileira está cada vez mais consolidada, o país africano Uganda ainda tem um grande obstáculo pela frente para aperfeiçoar os veículos de comunicação locais. No documentário "The World's Worst Place To Be Gay", da BBC, nota-se que a publicação de jornais, como Rolling Stone, Daily Onion e Red Pepper, aumenta o ódio das pessoas pelos homossexuais, contra os quais existe até uma lei. Apesar do enfoque pela mídia, os direitos sociais patinam. Por exemplo, não há saneamento básico - as crianças brincam ao lado de esgoto e as pessoas defecam em buracos - e as condições do ambiente favorecem a proliferação de doenças como a cólera. 

As capas estampam fotos de gays da região, acompanhadas de manchetes homofóbicas, que impulsionam crimes contra os LGBTs. Um deles morreu depois de ataque a marteladas na cabeça quando estava em casa. Em entrevista do jornalista Scott Mills com uma mulher que foi flagrada aos beijos com outra menina - cujas fotos foram parar no jornal -, descobre-se que na infância ela foi estuprada por um segurança. Ele argumentou que ia ensiná-la a dormir com homens. Ela ficou grávida, contraiu Aids e tentou cometer suicídio.

Lá, os jornais pedem informações sobre a localização dos homossexuais. E, quando a família descobre que um entre eles é gay, expulsa-o de casa. Assim, os homossexuais de Uganda são obrigados a se juntar para morar juntos. Os moradores da região - até os jovens - acreditam que os gays devem ser condenados à prisão perpétua; outros, à pena de morte.