sábado, 17 de novembro de 2012

SOS Rocinha

A vista da casa de Tiago Sacramento e Janaina Pinto é um amontoado de lixo – carrinho de bebê, sofá, televisão, mesa, sacolas de lixo, restos de propaganda política, garrafas PET. O imóvel fica na região da Rocinha conhecida como Roupa Suja, próximo ao Túnel Dois Irmãos, e estava abandonado antes de o casal chegar. 

Sacramento conta que os antigos moradores foram retirados para a casa ser demolida, por causa das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O segundo e terceiro andar já se foram, lembra, e agora falta derrubar onde eles vivem. Antes de se mudar para a habitação, há um ano, o casal morou em outras áreas da favela e, por último, acampou na Praia de São Conrado durante toda a gestação da segunda filha da união, Thainá. 

– Teve uma ressaca que quase “pegou” a gente de madrugada. Sorte que eu acordei, e a gente saiu correndo, senão ia cair dentro da vala – recorda-se Sacramento. 

Na Roupa Suja, em vez de se preocupar com o mar, Janaina e Sacramento precisam ficar atentos a ratos, baratas e aranhas que invadem a casa. Para isso, contam com a ajuda do vira-lata Sinistrinho, que tenta matar, principalmente, os roedores. 

O casal afirma que descarta o lixo numa lixeira depois de alguns lances de escada abaixo, mas, pela quantidade de lixo, não é o que a maioria dos moradores faz. “As pessoas deixam o lixo na porta delas, na porta dos outros, largam o lixo no beco. Quando alguém joga lixo aqui, eu berro ‘isso não é lixeira, não!’”, reclama. 

Foram outros problemas da favela, porém, que fizeram Sacramento parar no Hospital Municipal Miguel Couto e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Rocinha. 

– Eu pisei no esgoto, dentro da vala, e um jato de água veio na minha cara. Deu infecção, e eu senti dor no estômago. A vizinha tinha me pagado R$ 50 para eu limpar e aconteceu isso – conta, sobre a época em que morava na Rua 4, na Rocinha.

Outros becos da Rocinha:


Direito de resposta para a Comlurb - 21/11/2012:

Para remover o lixo das encostas, a Comlurb disponibilizou garis alpinistas na Rocinha, principalmente na localidade "Roupa Suja" que fica em cima do túnel Zuzu Angel. A interrupção dos serviços aconteceu devido às chuvas dos últimos dias. E os resíduos são removidos à medida que a limpeza é feita. Hoje, dia 21, os serviços foram retomados. Esses trabalhadores foram treinados com apoio de técnicos da Defesa Civil e utilizam técnicas de manejo com equipamentos de segurança. Apesar do esforço em manter limpas as encostas, os moradores insistem em jogar lixo no local, fazendo com que a operação emergencial se torne uma rotina. A limpeza de encosta está sendo realizada a cada 15 dias. A Comlurb mantém uma base na parte baixa da comunidade, próxima aos pontos de ônibus, para que os moradores façam o despejo dos resíduos. Também há uma caixa para receber entulho dos moradores. 

Embora seja uma área com passagem constante da população da Rocinha, alguns moradores insistem em jogar o lixo nas encostas, valões, vielas e ruas.

A Rocinha, onde antes da ocupação pelas forças de segurança havia duas bases com caixas compactadoras, passou a contar com quatro bases com caixas compactadoras, com capacidade para oito toneladas de lixo, nos pontos principais da comunidade, que são retiradas duas vezes ao dia. As bases estão disponíveis com essas caixas para recebimento do lixo domiciliar e outras para receber entulho e bens inservíveis encaminhados voluntariamente pela população, e para o lixo e materiais diversos coletados pelos veículos de apoio. Futuramente serão ampliadas as bases para coleta.

A coleta de lixo na Estrada da Gávea e ruas de acesso é feita diariamente e passou a ser duas vezes ao dia, de segunda-feira a domingo.

Antes da pacificação, 30 garis atuavam e, a partir dela, 70 foram contratados e hoje 100 garis atuam na Rocinha.

Atualmente são removidas 120 toneladas de resíduos por dia e antes da pacificação a quantidade era de 80 toneladas/dia.

No período da ocupação, de 14 a 18 de novembro de 2011, os garis da Comlurb retiraram 619 toneladas de resíduos das três comunidades. Atuaram 320 trabalhadores, entre equipes da Rioluz, Comlurb e Coordenadoria Geral de Conservação. Foram utilizados caminhões basculantes, pás mecânicas, caminhões conjugados de drenagem, caminhões cesto, caminhões coletores, varredeiras, poliguindastes, mini-tradores, kombis, compressores e outros veículos leves.A Rocinha também recebeu, nesse período, uma ação de controle de roedores por trinta técnicos e auxiliares de controle de vetores.

É atribuição da Comlurb somente o controle de roedores. A Gerência de Controle de Roedores da Comlurb efetua, semanalmente, intervenções químicas contra roedores em locais críticos da Rocinha como: escolas, incluindo o CIEP, creches, UPA, pontos de descarte de resíduos, valões, etc. Também atende aos pedidos encaminhados pela Associação de Moradores. Para atendimento às residências, os moradores devem solicitar através do Teleatendimento 1746, que funciona 24 horas.

Atenciosamente,

Coordenadoria de Comunicação Empresarial COMLURB

A função social do jornalista

Jornalistas contam como renovam função social 
Por Gabriela Caesar para o Portal PUC-Rio Digital em 24/05/2011

A função social no jornalismo é plenamente exercida? Para discutir o tema, os jornalistas Eduardo Auler e Vinicius Neder vieram à PUC-Rio na quinta-feira passada (19) participar de debate mediado pelo professor Leonel Aguiar, também coordenador do curso de jornalismo (assista à íntegra). Eduardo (foto), chefe de reportagem do jornal Extra, lembrou as dificuldades enfrentadas na produção de reportagens de "cunho social".
                                                      Luisa Nolasco

– Não é fácil a matéria sobre o ensaio sensual de um ator, à qual só foi preciso copiar e colar uma foto, ser 10 vezes mais lida que a sua, na qual você demorou um mês; para a qual você entrevistou várias pessoas; e com a qual você acha que está colaborando para a sociedade – afirmou.

O especialista em coberturas sobre educação confia, entretanto, na sobrevivência da função social do ofício. Ele a considera até estratégica para a imagem de responsabilidade das empresas jornalísticas e dos profissionais de comunicação:

– O jornal é uma marca que se fortalece com as grifes que existem dentro dele. São os repórteres que dão credibilidade a essa marca – acredita.
                                                      Luisa Nolasco

Autor do livro Jornalismo e a exclusão social: análise comparativa nas coberturas sobre crianças e adolescentes (Editora Multifoco, R$ 45), Vinicius (foto) identifica um crescimento da temática social entre meados dos anos 1990 e da primeira década do século XXI, relacionado ao processo histórico brasileiro. Vinicius, porém, ressalva:

– Esse ganho de espaço não significa necessariamente uma qualificação, uma melhoria na qualidade.

Em busca do avanço da qualidade do conteúdo jornalístico, Vinicius pesquisou, na dissertação de mestrado que deu origem ao livro, se “princípios básicos, como ouvir os dois lados e não usar termos pejorativos, eram menos atendidos no dia a dia que em coberturas especiais”. Ele verificou que reportagens premiadas tinham uma média de quatro fontes, contra entre 1,1 e 1,3 em matérias comuns, segundo relatórios da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

Ex-orientando de Vinicius, o professor Leonel Aguiar destacou a importância de iniciativas como o Prêmio Esso para a valorização das melhores práticas jornalísticas – boa parte delas convertidas em contribuições sociais:

– Servem para mostrar o que há de mais relevante no trabalho dos jornalistas. São as melhores práticas jornalísticas apontadas pela própria comunidade jornalística.

Vencedor do Prêmio Esso de Reportagem em 2006, pela série de reportagem intitulada Adeus, Futuro, sobre a evasão escolar no Rio, Eduardo lembrou que a pauta veio do estranhamento em relação a um dado no release da Secretaria estadual de Educação: 20% dos alunos deixavam a escola. Para apurar a história, ele abriu mão das férias e superou, com a ajuda da sorte, a dificuldade em visitar colégios de cidades mais distantes, como Macaé e Friburgo:

– Soube de um concurso de banda em uma escola pública em Niterói do qual participariam estudantes de diferentes regiões. Fui até lá e peguei o contato de cada um deles – explicou o jornalista, que entrevistou 150 estudantes.

Espirituoso, Eduardo divertiu a plateia ao recordar os bastidores de sua primeira série de reportagens premiada, pela Sociedade Americana de Imprensa (SIP):

– Fiquei dois meses, copiando à mão, mais de cem relatórios do abandono dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) do governo Garotinho (1999-2002). Todo dia. No fim, depois de ter copiado praticamente tudo, eu conquistei a confiança de uma das coordenadoras e ela me deu os relatórios.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O fotojornalismo carioca



No documentário Abaixando a máquina – ética e dor no fotojornalismo carioca, os fotógrafos do Rio de Janeiro contam os bastidores da notícia, como a entrada em áreas dominadas pelo tráfico de drogas, acompanhada de policiais, e o registro de momentos íntimos de pessoas comuns. O longa-metragem de Guillermo Planel e Renato de Paula relembra, por meio de depoimentos dos profissionais da câmera fotográfica, fatos marcantes, como o sequestro do ônibus 174, a mudança na rotina após a morte do jornalista Tim Lopes, no Morro do Alemão, e a foto de engenheiro baleado, no colo da mãe, no Centro – que rendeu a Marcelo Carnaval o Prêmio Esso 2006.

Há imagens dos fotojornalistas entrando na favela para registrar o sofrimento e da dor dos moradores, depois de conflito entre a polícia e o exército do tráfico de drogas. O filme cumpre a função de discutir o noticiário policial e toca na importância da imagem como ferramenta fundamental na resistência à desinformação, questionável por alguns profissionais.

Os fotógrafos ressaltam a força da imagem para fazer as pessoas se darem conta da situação em que a sociedade se encontra. Ali, segundo eles, há a busca por registrar a realidade, aquilo que o profissional vê, consta e precisa se passar para o leitor, para o internauta. Questiona-se, porém, se essa visão do fotojornalista não está muito deturpada (costuma-se dizer que os jornalistas usam “óculos especiais”) a ponto de publicar uma foto que, na verdade, desconstrói a realidade e confunde a população. A escolha da foto pode ser interferida por critérios editoriais e ser usada mais como produto do que como realidade, argumenta-se. Por exemplo, por que se usa mais fotos de operações policiais? Acredita-se que a decisão esteja ligada estreitamente ao interesse mercantilista, ao objetivo de vender jornal e, assim, dar mais espaço para notícias que transformam o Rio numa cidade violenta, armada e perigosa. A imagem vendida pela imprensa se espalha pelo mundo, consolidando os adjetivos associados ao Rio.

Os limites dos fotojornalistas também entram em pauta quando se pensa na privacidade da população, principalmente dos moradores das favelas dominadas pelo tráfico de drogas, invadidas por policiais que ostentam fuzis e armas poderosas. Muitas vezes, nenhuma palavra é trocada com a pessoa antes de o fotógrafo registrar o momento. Eles apertam o botão a qualquer custo, e depois, analisam se determinada foto deve ser ou não censurada. Um exemplo de análise é a foto vencedora do Prêmio Esso 2006 na qual Marcelo Carnaval flagrou uma mãe com o filho morto depois de baleado no colo, durante a noite, no Centro. Critica-se a atitude do fotógrafo ao registrar o momento por acreditar que aquele era um momento íntimo, quando a mãe enfrentava o falecimento de um ente querido. Outros reforçam a importância de fotografar para abrir os olhos da população quanto à violência da cidade e, assim, lembrar o grande obstáculo a ser enfrentado. Já quem critica enxerga a publicação da foto como produto, cujo interesse principal é a venda em escala para aumentar a renda do veículo de comunicação.

Atrás dos policiais, muitas vezes presentes para fazer operações policiais com objetivo de prender bandidos ou apreender drogas e armas, os fotógrafos correm o risco de levar uma bala. Assim como ocorreu há um ano, quando o repórter cinematográfico Gelson Domingos, da TV Bandeirantes, foi morto depois de atingido por tiro de fuzil na Favela de Antares, Zona Oeste do Rio. Desta forma, no decorrer do filme, questiona-se a falta de segurança que cerca os profissionais da área. Em determinado trecho, mostra-se imagens gravadas no dia 17 de abril de 2007 no Catumbi, quando tiros se aproximam da equipe de jornalistas, que são obrigados a recuar. O gosto pela ação e a falta de conhecimento sobre a noção do perigo são destacados pelos fotógrafos ouvidos, que admitem trabalhar numa profissão perigosa.

Leia também:
Isso daqui não é uma aula de fotojornalismo, de Mauro Pimentel

Qual é o limite do jornalista

Neste ano, época de eleições municipais, um jornalista do Jornal da Tarde – que, recentemente, deixou de circular depois de 46 anos – se candidatou para vereador de São Paulo. Ele apareceu no horário eleitoral, fez ações de campanha, tinha cavalete, número e nome. O objetivo era incorporar o papel do político e contar as experiências vividas durante a campanha. Um dos momentos mais escabrosos foi ouvir “Ah, sem problemas. Já estamos acostumados com esse tipo de trabalho. Aliás, eu até preciso ver se existe disponibilidade de veículos para o dia 7 [dia das eleições]…” de funcionário de empresa que aluga van, kombis, mini-ônibus. Leia alguns posts:


Esta não foi a primeira vez que um jornalista assumiu o papel de outro para entender, contar, enxergar por um ponto de vista diferente. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2011, o repórter Lauro Neto, da Revista Megazine – hoje, disponível só online –, do jornal O Globo, inscreveu-se na prova. O veículo divulgou o tema da redação antes da autorização para os estudantes deixarem a sala, e a confusão já estava armada. Uma aluna teria avisado a redação ou o repórter teria passado a informação? O resultado da experiência do jornalista como vestibulando foi contada no texto abaixo, publicado no dia 24/10/2011 e reproduzido na íntegra:

Sem ser repreendido por fiscais, repórter faz a prova do Enem 2011 com itens que eliminaram outros candidatos 
RIO - Quando fiz o Enem pela primeira vez, em 2000, não fiquei tão nervoso quanto na edição deste último fim de semana. Naquela época, a prova servia no máximo para entrar na PUC e não tinha tantos aparatos tecnológicos de segurança para evitar fraudes. No sábado, tive até que tirar meu relógio analógico de pulso a pedido do fiscal. Guardei-o prontamente com meu celular num saquinho que havia trazido de casa, já que ele não me ofereceu a bolsa lacrável recomendada pelo Inep. 

Depois da prova, fiquei intrigado quando soube que, em diferentes partes do país, candidatos estavam sendo eliminados devido ao uso de canetas não transparentes, lápis, borracha e até brincos(!). Perguntei-me se o aplicador da prova não teria atentado para a caneta toda preta que ficou durante mais de cinco horas sobre a mesa. Também achei estranho que estudantes tivessem sido desclassificados por twittarem antes do início do exame. Em pelo menos três salas vizinhas à minha, celulares tocaram durante o tempo de prova, e seus donos foram apenas orientados a desligá-los. 

Por isso, no segundo dia de prova, decidi inovar no visual: adotei não bijuterias, mas boné e óculos escuros - proibidos no edital do Enem. Comprei também um lápis com borracha na porta da faculdade, onde o vendedor garantia aos gritos: "Comprou, passou!". 

Novamente, o fiscal não me forneceu o saquinho e, desta vez, resolvi ousar: guardei meu celular no bolso, no modo silencioso, para não perturbar ninguém. Canetas (azul e preta não transparente) ficaram sobre a mesa, como no dia anterior. 

O aplicador de prova também não percebeu que vários estudantes abriram o caderno de perguntas antes de soar o sinal de início. Só depois de passada meia hora de prova, ele solicitou, educadamente, que eu tirasse o boné e o colocasse embaixo da mesa. Minutos depois, perguntou também se eu podia guardar meus óculos escuros, que estavam presos à minha camisa. Atendi-o prontamente. 

Bateu vontade de ir ao banheiro. Como não havia nenhum fiscal por perto, decidi testar a segurança da prova e mandei um SMS para a equipe de reportagem do GLOBO com o tema da redação: "Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado". Que ironia! Eu, em frente à privada, tornando pública uma informação através de comunicação em rede. Deu tempo até de mandar outro torpedo com os títulos e autores dos textos da coletânea. 

Voltei à sala, preenchi a folha de respostas com lápis, canetas azul e preta (não transparente), e dei um título à redação, pensado no banheiro: "Sorria, você está sendo eliminado!". Depois, entreguei aos fiscais e fui embora pensando: se eu fosse um aluno desesperado para entrar na faculdade, poderia até ter consultado a internet pelo celular ou trocado SMS com algum professor para tirar dúvidas... 



Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Os imprevistos no jornalismo

Os imprevistos são importantes e fazem parte da profissão. Essa foi uma das lições que o repórter da Globo News Rodrigo Carvalho, de 25 anos, levou na carreira profissional. O jornalista esteve na cobertura do resgate dos 33 mineiros no norte do Chile, há aproximadamente dois anos. A permanência dos mineiros durante dois meses debaixo da terra teve, entre as consequências, o livro de Carvalho, Vivos Embaixo da Terra: Relatos de um Repórter no Resgate Histórico dos 33 Mineiros no Chile (120 Páginas, Editora Globo, 2011). A obra reúne histórias dos bastidores da primeira cobertura internacional dele, algumas contadas por Carvalho, ontem de manhã, na PUC-Rio, em comemoração aos 25 anos do Projeto Comunicar. 

Ele lembra que se envolvia em todas as etapas da reportagem, pois tinha de assumir funções da produção, dirigir o carro, reservar o hotel, etc. Desde a saída do jornalista da redação no Rio de Janeiro, porém, a imprevisibilidade já cercava Carvalho: 

– Estava na inauguração de um laboratório da Petrobras, cobertura para o Jornal das Dez, e aí me liga a editora-chefe do [programa] Sem Fronteiras, Renee [Castelo Branco]. ‘Queria combinar com você o esquema da cobertura dos mineiros no Chile’. Ninguém tinha me falado nada – recordou na palestra para 60 alunos de Comunicação Social. 

Nem todas as lições, porém, foram fáceis de lidar. Quando estava no Chile, o para-brisa do carro alugado ficou estilhaçado por causa de uma pedra, e ele teve de conversar com a locadora de automóvel. Mas a sorte prevaleceu na carreira jornalística, principalmente, na cobertura do resgate dos mineiros: 

– No Chile, quando houve o resgate, a cobertura foi para frente do hospital. Mas eu estava lá dentro, porque eu tinha ido ao banheiro. Fiquei lá dentro, com o meu crachá. A gente foi para a ala dos mineiros e os filmei. Perguntei se eles estavam bem. A matéria do Jornal das Dez foi toda com as imagens do celular.

Os escândalos da BBC


Os britânicos que pagam a licença anual da BBC de £145.50 (aproximadamente R$ 475) se surpreenderam com os bastidores do conglomerado de comunicação.

Em outubro deste ano, a principal concorrente da BBC, ITV, exibiu um programa sobre abusos sexuais praticados pelo apresentador da BBC Jimmy Savile, morto no ano passado. O jornalista Peter Rippon, da BBC, escreve que uma reportagem quanto ao tema tinha sido feita pela emissora. O conteúdo tinha sido, porém, “engavetado”. O caso ganha maior dimensão quando o premier David Cameron pede a reabertura das investigações. A ombudsman do New York Times questiona a recém contratação de Mark Thompson, diretor-geral da BBC de 2004 a 2012, que nega estar envolvido no escândalo. A história de Savile ganha desdobramentos, com revelações de pessoas que foram abusadas pelo apresentador durante a infância. Acredita-se que haja cerca de 300 vítimas identificadas e, em alguns casos, o crime ocorreu dentro da BBC. Pelo menos três médicos do Hospital Stroke Mandeville teriam recebido propina de Savile, encobrindo o apresentador dos abusos sexuais.


Enquanto isso, o programa da BBC Newsnight exibiu reportagem sobre abusos sexuais praticados pelo político Lorde Alistair McAlpine. A emissora não deu o nome dele, mas deu evidências para os telespectadores encontrarem o nome de McAlpine. As acusações não confirmaram, porém, pois tanto ele quanto a possível vítima negaram. O então diretor-geral da BBC, George Entwistle, renuncia o cargo e recebe a compensação de um ano de trabalho, R$ 1,47 milhão. Mais funcionários da BBC se afastam do cargo. Desta vez, a diretora da BBC News, Helen Boaden e o vice dela, Stephen Mitchell, pedem licença temporária, enquanto a empresa analisa por que o programa da BBC sobre Savile não foi ao ar. BBC entra em acordo com McAlpine para indenizá-lo em £185 mil, o equivalente a mais de R$ 600 mil. 

Se fosse no Brasil, todos ainda estariam mamando nas tetas da empresa pública choramingando “Não fui eu! Não fui eu!”.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A trajetória da Abraji


A morte do jornalista Tim Lopes, executado por traficantes do Morro do Alemão, onde estava infiltrado para fazer uma reportagem investigativa para a TV Globo, em 2002,  foi o estopim para a criação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Dez anos depois do surgimento do órgão, o atual presidente da associação e editor-chefe do RJTV 2a Edição, Marcelo Moreira, participou de mesa na sala 102-K com o professor da matéria eletiva Jornalismo Investigativo da PUC-Rio, Leonel Aguiar, nesta terça-feira (13).

– Não era normal um jornalista ser assassinado. Se algo não fosse feito naquele momento, o Brasil poderia caminhar para a banalização da morte dos jornalistas – recorda-se Moreira, para aproximadamente 50 alunos.

Moreira acrescentou que a tendência seria a autocensura dos jornalistas por medo, em razão da falta de investigação do crime para encontrar o culpado. A união dos profissionais em busca de respostas podia ser o caminho. A conjuntura internacional, no entanto, não era favorável.

– O Brasil tinha estreado na Copa do Mundo contra a Turquia. Era um momento de festa, e nós, jornalistas, estávamos preocupados em saber onde estava Tim Lopes.


Apesar disso, houve manifestações em Copacabana, na Tijuca, na Penha e encontros no sindicato dos jornalistas. E a partir do momento de tensão, os colegas de Tim decidiram tirar da morte dele algo positivo. Segundo Moreira, o término da matéria que Tim produzia foi cogitado, assim como ocorreu no Arizona, Estados Unidos, com jornalista morto pela máfia que ele investigava. Como não conseguiram acabar a matéria, viram-se obrigados a cobrar “que as autoridades fizessem o papel delas”.

Nos primeiros passos, a função da Abraji se resumia a seminários curtos, de um, dois dias e oficinas para usar Microsoft Excel e banco de dados. Com o tempo, mais profissionais passaram a reconhecer a importância do órgão, e o espaço da organização aumentou. Como exemplo, pode-se citar o prêmio Liberdade de Imprensa dado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) para a organização. (Leia mais)

Moreira adiantou que, de 12 a 15 de outubro de 2013, a PUC-Rio sediará uma das maiores conferências sobre a área, em congresso organizado pela Abraji. Esta será a primeira vez que o evento ocorre fora da Europa. O objetivo é reunir profissionais envolvidos no tema para discutir os métodos e trocar experiências. (Leia mais)


Colocar ou não o nome do traficante Marcinho VP

Durante a palestra, o jornalista também lembrou uma história inviável hoje, pós-morte de Tim Lopes e pós-pacificação da favela Santa Marta, em Botafogo. Ele (então Jornal do Brasil), Nelito Fernandes (então O Globo) e Silvio Barsetti (então O Dia) entrar na favela com o objetivo de conseguir uma entrevista com o cantor Michael Jackson, que gravaria um clipe no local. Nem tudo saiu como os planos, mas a vaidade de Marcinho VP rendeu, no mínimo, uma entrevista sobre o bandido. 

Um trecho do livro reportagem-romance "Abusado" rende uma discussão ética válida para todos que temos a pretensão de ser bons jornalistas. Em 1996, três repórteres dos três maiores jornais do Rio se infiltraram na favela Santa Marta. Os profissionais queriam produzir material exclusivo sobre o assunto que todo o país discutia naquela época: a gravação de um clipe de Michael Jackson no morro. Os três menosprezaram a organização do grupo criminoso que dominava a comunidade e não demorou muito para que fossem descobertos "disfarçados" de "favelados". Até aí, ok. Dois deles eram bem novos e temos de nos arriscar por uma matéria que acreditamos, mesmo correndo o risco de ficar sob a mira das metralhadoras de gente que julga e executa "sentenças" de morte com muito mais "rapidez" que o Estado. (Continue lendo o texto)


Mais sobre Tim

Leia mais sobre o jornalista Tim Lopes com o post A primeira semana, publicado no dia 11 de agosto.